Por: Karina Christina Souza
25/05/2026 - 11:11:00

Outro dia ouvi Fernando Mendes cantar: " Sorte tem quem acredita nela..."

E fiquei pensando em quantas vezes a vida endurece a gente sem que a gente perceba.

Há pessoas que deixaram de acreditar não porque são fracas, mas porque cansaram. Cansaram de esperar, de tentar, de se decepcionar. A realidade foi ficando pesada demais, prática demais, dura demais. E então passaram a chamar de “pé no chão” aquilo que, muitas vezes, já era apenas ausência de esperança.

Só que existe uma diferença silenciosa entre maturidade e desistência.

Maturidade é entender que a vida nem sempre entrega o que queremos no tempo que desejamos.

Desistência é parar de olhar para o amanhã com alguma expectativa de beleza.

Acreditar na sorte talvez não tenha nada a ver com superstição. Talvez tenha relação com disponibilidade para a vida. Porque quem acredita continua percebendo possibilidades. Continua enxergando encontros, recomeços, pequenos sinais. Continua tentando mais uma vez, mesmo carregando cicatrizes.

É como aquela mulher que voltou a estudar depois dos 50 anos, ouvindo de muita gente que “já passou da idade”, e mesmo assim conquistou o diploma que parecia impossível.

Ou o homem que recebeu tantos “nãos” no currículo que quase desistiu, mas insistiu até encontrar uma oportunidade que mudou completamente sua vida.

Ou ainda quem saiu de um relacionamento que destruiu sua autoestima e, mesmo desacreditado do amor, teve coragem de recomeçar emocionalmente.

De fora, muitos chamam isso de sorte.

Mas quem viveu sabe: houve medo, cansaço, noites difíceis e vontade de desistir. O que fez diferença foi não abandonar completamente a esperança.

Quem não acredita, fecha as janelas antes mesmo do vento chegar.

E isso me faz pensar que a sorte, muitas vezes, não escolhe as pessoas mais inteligentes, mais fortes ou mais preparadas. Às vezes ela encontra justamente aquelas que, apesar da dor, ainda conseguem manter alguma delicadeza dentro de si. Pessoas que ainda se permitem sonhar sem achar isso ridículo.

O mundo moderno nos ensinou a desconfiar de tudo. Dos sentimentos, das promessas, das pessoas e até de nós mesmos. Mas talvez viver também exija uma certa coragem de acreditar — não ingenuamente, mas humanamente.

Porque há algo profundamente triste em sobreviver sem esperar mais nada da vida.

No fundo, talvez a sorte não seja um acontecimento.

Talvez seja um estado de espírito.

Uma maneira de continuar dizendo “sim” para a vida, mesmo depois de tantos “nãos”.

E talvez seja exatamente isso que a música tenta nos lembrar: a esperança ainda encontra quem não fechou o coração para o impossível.

Luciene Nogueira

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