Que pergunta difícil de responder.
Quando tentei respondê-la, precisei revisitar praticamente a minha vida inteira.
Tenho medo de alguns bichos, sim. Rato. Cobra. Confesso sem vergonha.

Mas, no meu íntimo, há pouco tempo descobri um medo maior, mais silencioso e mais profundo: o medo de esquecer.
E esse medo tem nome, história e herança afetiva.
Minha mãe, Lourdinha, Dona Maria de Lourdes, a mulher que me inspira diariamente a ser um ser humano mais consciente do que ontem, foi diagnosticada com Alzheimer nos últimos anos de sua vida. Desde muito antes do diagnóstico, lembro-me dela repetindo, quase como um pressentimento: “Tenho medo de perder a memória”.
Hoje compreendo.
E, sim, herdei esse medo dela.

O Alzheimer não é apenas uma doença do esquecimento. É uma doença neurodegenerativa progressiva, que compromete memória, linguagem, comportamento, autonomia e, aos poucos, a própria identidade do sujeito. Estima-se que cerca de 55 a 57 milhões de pessoas no mundo convivam com algum tipo de demência, sendo o Alzheimer responsável por 60% a 70% dos casos.
No Brasil, a realidade também é alarmante: aproximadamente 1,8 milhão de pessoas vivem com a doença, e as projeções indicam que esse número pode triplicar até 2050 devido ao envelhecimento da população.
Ou seja, não se trata de um medo individual.
É um fenômeno coletivo, silencioso e crescente.
E talvez o mais doloroso seja isso: o Alzheimer não rouba apenas memórias, ele desconstrói narrativas de vida. Aos poucos, histórias, afetos, rostos e significados começam a se dissolver. A pessoa permanece fisicamente presente, mas cognitivamente se distancia do mundo — e, às vezes, de si mesma.
Confesso que tenho pensado muito sobre isso.
E já verbalizei esse medo para minha família.
Desde então, comecei pequenos movimentos de prevenção:
a retomada ao estudo do espanhol,
os caça-palavras,
as palavras cruzadas,
leituras diárias, ainda que por cinco minutos,
um aprendizado novo que é o bordado russo,
o retorno à escrita à mão — bilhetes, lembretes, cartas para mim mesma e esta Coluna, que me desafia mental, emocional e espiritualmente.
Porque, no fundo, exercitar a mente também é um ato de cuidado com o futuro.
Como pedagoga e escritora criativa, compreendo que o cérebro é um órgão vivo, plástico e educável ao longo de toda a vida. Estudos indicam que a estimulação cognitiva, a leitura, a escrita, a aprendizagem contínua e o engajamento intelectual fortalecem as conexões neurais e podem contribuir para uma maior “reserva cognitiva”, tornando o cérebro mais resistente ao declínio. Inclusive, pesquisas brasileiras apontam que a baixa escolaridade é um dos fatores que mais influenciam o declínio cognitivo, enquanto a educação e o estímulo mental ampliam as conexões cerebrais e funcionam como proteção ao envelhecimento do cérebro.

Ensinar, aprender, ler, escrever e conversar não são apenas práticas pedagógicas.
São também práticas de preservação da mente.
Talvez por isso eu escreva.
Talvez por isso eu insista em aprender.
Talvez por isso eu seja tão tagarela, digo, comunicativa.
Talvez por isso eu me desafie todos os dias.
Não apenas por profissão.
Mas por sobrevivência simbólica da memória.
E, no entanto, existe uma verdade que me atravessa:
não temos controle absoluto sobre o tempo, nem sobre o cérebro, nem sobre o que será esquecido.
Minha mãe temia perder a memória.
Eu temo perder as lembranças que me conectam à minha história, à minha identidade e às pessoas que amo.
Mas existe um medo ainda mais profundo que o Alzheimer me ensinou a enxergar:
não é apenas esquecer nomes, datas ou fatos.
É ser esquecida em vida.
É deixar de ser reconhecida na própria existência.
E então eu me pergunto — e talvez você também devesse se perguntar:
se um dia a memória falhar, o que permanecerá de nós?
As lembranças que guardamos…
ou o amor que deixamos marcado na memória dos outros?
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