Quem te amaria quando você não puder oferecer mais nada?
Quando o dinheiro acabar, o corpo cansar, os aplausos sumirem.
Nos últimos dias, essa pergunta tem me acompanhado.
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Um dos maiores aprendizados que tive ao cuidar da minha mãe, nos últimos anos de sua vida, foi compreender a importância de o ser humano continuar sendo amado e cuidado mesmo quando já não é mais útil.

Minha mãe já não limpava a casa, não fazia as compras, não costurava minhas roupas. Não cozinhava mais. Não fazia o café cheiroso que enchia as canecas, nem a sopa de macarrão com batatinha e muita pimenta-do-reino, que ardia na garganta depois. Não preparava mais a feijoada mineira farta, com banana-da-terra e batata-doce; nem a galinha ao molho pardo, que ela fazia questão de costurar à mão, com linha colorida, a farofa antes de levar ao forno. Também não fazia mais a famosa gemada revigorante, servida bem quente quando estávamos gripados — depois, eu e meus irmãos ficávamos “novinhos em folha”.
Nada disso ela fazia mais.
Na lógica social que nos rege, minha mãe havia se tornado inútil.
É uma palavra dura. Mas reveladora.
A sociedade não sabe lidar com quem já não entrega resultados. Não reconhece valor em quem apenas existe. A chamada inutilidade passa a definir o idoso, o doente, o frágil, o cansado — aqueles que já deram tudo o que tinham e agora só precisam ser amados.

Evita-se dizer, mas é verdade: hoje, o valor humano costuma ser medido pela utilidade. Pelo que se faz, não pelo que se é.
A inutilidade da minha mãe antes de partir será, um dia, a minha também. E a sua.
Continuar a amá-la e a cuidar dela não me trouxe perdas. Trouxe vivências, maturidade e aprendizados que levarei para a vida inteira. Sou imensamente grata a Deus Pai por ter vivido essa experiência.

E, embora eu sinta falta das “utilidades” da minha mãe, o que mais me faz saudade não são as comidas nem os cuidados práticos. É o seu olhar acolhedor. São seus conselhos sábios, sempre ponderados. É a presença que permanecia inteira, mesmo quando o corpo já não respondia.
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Sem que eu soubesse, cuidar dela foi um gesto de resistência. Um ato silencioso contra uma cultura que descarta, que acelera, que transforma pessoas em funções e relações em trocas.
Não perdi nada ao cuidar da minha mãe. Ganhei humanidade. Ganhei tempo desacelerado. Ganhei a oportunidade de aprender que o amor verdadeiro começa exatamente onde a utilidade termina.
Talvez o grande teste do amor — pessoal e social — seja este:
quem permanece quando já não há mais nada a oferecer?