Por: Karina Christina
15/01/2026 - 18:15:26

Meu pai, aos 86 anos, sempre que presencia uma ofensa a um idoso ou ouve comentários  de desprezo sobre o envelhecer, responde em alto e bom som:

“Só não vai envelhecer quem já morreu!”

A frase simples é desconcertante.

Afinal, envelhecer não é tão natural quanto nascer?

Por que, então, uma parcela tão significativa da sociedade insiste em tratar o envelhecimento como um erro, uma falha moral, um crime passível de punição?

Mais espantoso ainda: quem ousa assumir essa fase da vida de maneira natural costuma ser rotulado como fraco e descuidado diante de todos.

O envelhecimento, hoje, vem cercado por crenças limitantes — físicas, mentais e emocionais — tão visíveis quanto palpáveis. Ele é frequentemente associado à perda, à inutilidade, à decadência. Pouco se fala sobre ganho, maturidade e sabedoria adquiridos ao longo dos anos.

Não por acaso, esse cenário fértil de ignorância e preconceito estruturado alimenta uma indústria inteira que prospera à sombra do medo de envelhecer. Cremes milagrosos, suplementos “naturais”, procedimentos estéticos lançados a toque de caixa — tudo para sustentar a fantasia de uma juventude eterna. Um mercado bilionário que vende esperança embalada em ilusão.

O resultado? Em grande parte dos casos, não é satisfação, mas uma busca infinita por algo que não retorna. A juventude não volta. E talvez o maior sofrimento esteja justamente em lutar contra essa verdade.

Cabe, então, distinguir conceitos que costumam ser confundidos:

juventude não é jovialidade,

jovialidade não é bem-estar,

e bem-estar não tem idade.

Mas de onde vem, afinal, esse ranço contra o envelhecimento?

Historicamente, na Grécia Antiga, o vigor físico e a beleza foram elevados ao ideal humano. O corpo jovem e forte tornou-se símbolo de perfeição — um imaginário que atravessou séculos e ainda repercute em nossas expectativas sociais.

No Brasil, os direitos das pessoas idosas só ganharam reconhecimento legal em 2003, com o Estatuto da Pessoa Idosa. Ainda assim, muitos idosos continuam sendo vistos como um peso — para a família, para o Estado, para a sociedade. Tornam-se vítimas frequentes, principalmente de violência física, patrimonial e psicológica, muitas vezes invisibilizadas.

“Ranço social contra o envelhecimento” é, portanto, o nome dado a esse preconceito engendrado e naturalizado contra quem envelhece — e contra o envelhecer em si.

Os dados são claros: a população idosa cresce em ritmo acelerado no mundo. Pessoas com 60 anos ou mais já representam uma das faixas etárias que mais se expandem globalmente. No Brasil, essa realidade é ainda mais urgente: em poucos anos, haverá mais idosos do que crianças.

Esse fenômeno movimenta — e continuará movimentando — áreas antes ignoradas: mercado de trabalho, beleza, previdência, cuidados especializados, valorização dos cuidadores de idosos, consumo, turismo. O envelhecimento não é exceção. É regra. É futuro. É presente.

Diante disso, não há mais espaço para negar ou maquiar essa realidade.

O ranço social contra o envelhecimento precisa ser desconstruído, ressignificado e enfrentado, com reflexões honestas e práticas concretas. Precisamos de políticas públicas eficazes, estruturas familiares mais conscientes e, sobretudo, de vivências impregnadas de humanidade, compaixão e solidariedade.

Envelhecer não é perder valor.

É transformar o tempo vivido em história, em memória, em legado.

 

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