Coluna Vem K!
Por: Karina Christina Souza
20/02/2026 - 15:05:11

Que pergunta difícil de responder.

Quando tentei respondê-la, precisei revisitar praticamente a minha vida inteira.

Tenho medo de alguns bichos, sim. Rato. Cobra. Confesso sem vergonha.

Mas, no meu íntimo, há pouco tempo descobri um medo maior, mais silencioso e mais profundo: o medo de esquecer.

E esse medo tem nome, história e herança afetiva.

Minha mãe, Lourdinha, Dona Maria de Lourdes, a mulher que me inspira diariamente a ser um ser humano mais consciente do que ontem, foi diagnosticada com Alzheimer nos últimos anos de sua vida. Desde muito antes do diagnóstico, lembro-me dela repetindo, quase como um pressentimento: “Tenho medo de perder a memória”.

Hoje compreendo.

E, sim, herdei esse medo dela.

O Alzheimer não é apenas uma doença do esquecimento. É uma doença neurodegenerativa progressiva, que compromete memória, linguagem, comportamento, autonomia e, aos poucos, a própria identidade do sujeito. Estima-se que cerca de 55 a 57 milhões de pessoas no mundo convivam com algum tipo de demência, sendo o Alzheimer responsável por 60% a 70% dos casos.

No Brasil, a realidade também é alarmante: aproximadamente 1,8 milhão de pessoas vivem com a doença, e as projeções indicam que esse número pode triplicar até 2050 devido ao envelhecimento da população.

Ou seja, não se trata de um medo individual.

É um fenômeno coletivo, silencioso e crescente.

 

E talvez o mais doloroso seja isso: o Alzheimer não rouba apenas memórias, ele desconstrói narrativas de vida. Aos poucos, histórias, afetos, rostos e significados começam a se dissolver. A pessoa permanece fisicamente presente, mas cognitivamente se distancia do mundo — e, às vezes, de si mesma.

Confesso que tenho pensado muito sobre isso.

E já verbalizei esse medo para minha família.

Desde então, comecei pequenos movimentos de prevenção:

a retomada ao estudo do espanhol,

os caça-palavras,

as palavras cruzadas,

leituras diárias, ainda que por cinco minutos, 

um aprendizado novo que é o bordado russo, 

o retorno à escrita à mão — bilhetes, lembretes, cartas para mim mesma e esta Coluna, que me desafia mental, emocional e espiritualmente.

Porque, no fundo, exercitar a mente também é um ato de cuidado com o futuro.

Como pedagoga e escritora criativa, compreendo que o cérebro é um órgão vivo, plástico e educável ao longo de toda a vida. Estudos indicam que a estimulação cognitiva, a leitura, a escrita, a aprendizagem contínua e o engajamento intelectual fortalecem as conexões neurais e podem contribuir para uma maior “reserva cognitiva”, tornando o cérebro mais resistente ao declínio. Inclusive, pesquisas brasileiras apontam que a baixa escolaridade é um dos fatores que mais influenciam o declínio cognitivo, enquanto a educação e o estímulo mental ampliam as conexões cerebrais e funcionam como proteção ao envelhecimento do cérebro.

Ensinar, aprender, ler, escrever e conversar não são apenas práticas pedagógicas.

São também práticas de preservação da mente.

Talvez por isso eu escreva.

Talvez por isso eu insista em aprender.

Talvez por isso eu seja tão tagarela, digo, comunicativa.

Talvez por isso eu me desafie todos os dias.

Não apenas por profissão.

Mas por sobrevivência simbólica da memória.

E, no entanto, existe uma verdade que me atravessa:

não temos controle absoluto sobre o tempo, nem sobre o cérebro, nem sobre o que será esquecido.

Minha mãe temia perder a memória.

Eu temo perder as lembranças que me conectam à minha história, à minha identidade e às pessoas que amo.

Mas existe um medo ainda mais profundo que o Alzheimer me ensinou a enxergar:

não é apenas esquecer nomes, datas ou fatos.

É ser esquecida em vida.

É deixar de ser reconhecida na própria existência.

E então eu me pergunto — e talvez você também devesse se perguntar:

se um dia a memória falhar, o que permanecerá de nós?

As lembranças que guardamos…

ou o amor que deixamos marcado na memória dos outros?



Por: Karina Christina Souza
13/02/2026 - 12:33:34

Quantas vezes você já sofreu por algo que nem aconteceu?

Eu posso responder essa pergunta com sinceridade: sofri inúmeras vezes antecipando dores que ainda nem existiam. Sofri no pensamento de um luto, de uma separação, de um afastamento de uma amizade verdadeira, da perda de um emprego, de um tratamento de saúde ou até mesmo da necessidade de reconstruir a própria vida.

E, em muitas dessas situações, percebi que a dor maior não estava no fato em si, mas na ansiedade de imaginar cenários que ainda não haviam se concretizado.

Foi então que, em diversos momentos, lembrei-me do girassol.

Uma planta de cores fortes, formato marcante e textura única que, mesmo diante do caos, procura a luz para sobreviver, se manter firme e cumprir a sua missão de florescer.

Essa imagem simples me ensinou algo profundo: nem sempre podemos controlar as circunstâncias, mas podemos escolher para onde direcionar o nosso olhar.

Em outros momentos, também me fortaleci com esse pensamento afirmativo:

"Não corte os momentos difíceis de sua vida, todos nós temos vontades, elas vêm e vão."

 E como está na Bíblia: "A cada dia basta o seu cuidado”. (Mateus 6,34).

 Alguns consideram essa passagem bíblica como sabedoria popular que diz:

“Basta a cada dia o seu próprio mal.”

Há uma sabedoria silenciosa nessa frase. Ela nos convida a viver o presente com mais serenidade, sem carregar o peso de dores futuras que talvez nunca cheguem. Sofrer antes do tempo é prolongar um sofrimento que, muitas vezes, nem será necessário.

Viver um dia de cada vez não é descuido com o futuro.

É maturidade emocional.

É economia de energia.

É cuidado com a própria saúde mental.

A vida já traz desafios suficientes em seu ritmo natural. Antecipar dores é acrescentar fardos desnecessários ao coração.

Talvez a verdadeira força esteja nisso: 

enfrentar o hoje com coragem,

aceitar o agora com lucidez,

e confiar que, quando o amanhã chegar, também trará consigo a graça necessária para ser vivido.

Assim como o girassol, que não controla o sol, mas escolhe voltar-se para a luz, nós também podemos escolher viver com presença.

Um dia de cada vez.

E isso, por si só, já é um grande ato de fé na vida.

 

Vem K!  Vamos conversar?



Por: Karina Christina Souza
06/02/2026 - 14:26:21

Quem te amaria quando você não puder oferecer mais nada?

Quando o dinheiro acabar, o corpo cansar, os aplausos sumirem.

Nos últimos dias, essa pergunta tem me acompanhado.

Um dos maiores aprendizados que tive ao cuidar da minha mãe, nos últimos anos de sua vida, foi compreender a importância de o ser humano continuar sendo amado e cuidado mesmo quando já não é mais útil.

Minha mãe já não limpava a casa, não fazia as compras, não costurava minhas roupas. Não cozinhava mais. Não fazia o café cheiroso que enchia as canecas, nem a sopa de macarrão com batatinha e muita pimenta-do-reino, que ardia na garganta depois. Não preparava mais a feijoada mineira farta, com banana-da-terra e batata-doce; nem a galinha ao molho pardo, que ela fazia questão de costurar à mão, com linha colorida, a farofa antes de levar ao forno. Também não fazia mais a famosa gemada revigorante, servida bem quente quando estávamos gripados — depois, eu e meus irmãos ficávamos “novinhos em folha”.

Nada disso ela fazia mais.

Na lógica social que nos rege, minha mãe havia se tornado inútil.

É uma palavra dura. Mas reveladora.

A sociedade não sabe lidar com quem já não entrega resultados. Não reconhece valor em quem apenas existe. A chamada inutilidade passa a definir o idoso, o doente, o frágil, o cansado — aqueles que já deram tudo o que tinham e agora só precisam ser amados.

Evita-se dizer, mas é verdade: hoje, o valor humano costuma ser medido pela utilidade. Pelo que se faz, não pelo que se é.

A inutilidade da minha mãe antes de partir será, um dia, a minha também. E a sua.

Continuar a amá-la e a cuidar dela não me trouxe perdas. Trouxe vivências, maturidade e aprendizados que levarei para a vida inteira. Sou imensamente grata a Deus Pai por ter vivido essa experiência.

E, embora eu sinta falta das “utilidades” da minha mãe, o que mais me faz saudade não são as comidas nem os cuidados práticos. É o seu olhar acolhedor. São seus conselhos sábios, sempre ponderados. É a presença que permanecia inteira, mesmo quando o corpo já não respondia.

Sem que eu soubesse, cuidar dela foi um gesto de resistência. Um ato silencioso contra uma cultura que descarta, que acelera, que transforma pessoas em funções e relações em trocas.

Não perdi nada ao cuidar da minha mãe. Ganhei humanidade. Ganhei tempo desacelerado. Ganhei a oportunidade de aprender que o amor verdadeiro começa exatamente onde a utilidade termina.

Talvez o grande teste do amor — pessoal e social — seja este:

quem permanece quando já não há mais nada a oferecer?



Por: Karina Christina Souza
30/01/2026 - 10:39:00

Em 2019, durante uma solenidade de posse de novos sócios do  clube de serviço social do qual faço parte desde 2013 - Lions Clube Santa Cruz, tive a honra  de no discurso de boas-vindas com o tempo de 05 minutos trazer uma reflexão curiosa: o que aquelas pessoas ganhariam ao integrar um clube dedicado a servir a comunidade local e regiões circunvizinhas sem receber nada em troca?

A provocação parecia simples, mas não era ingênua.

Porque não se pode negar: o ser humano, social por natureza, quase sempre espera algum tipo de retorno. Mesmo o gesto mais singelo — um sorriso oferecido a um desconhecido — carrega, ainda que de forma inconsciente, a expectativa de reciprocidade.

Então, que tipo de ganho é esse que não se escreve em contrato, não sofre reajuste anual e jamais aparece no contracheque?

Existe um pagamento que não é financeiro.

Existe o salário moral.

Ele não se mede em números, mas em gestos.

Está na forma como os atos são reconhecidos — ou ignorados. No modo como a palavra é acolhida. Na coerência entre discurso e prática. No respeito aos limites que não precisaram ser explicados, apenas percebidos.

O salário moral é silencioso, mas profundamente eloquente. Ele não compra bens, mas sustenta dignidades. Não garante conforto material, mas legitima pertencimentos. E, quando falta, nenhuma remuneração é suficiente para compensar.

Talvez por isso tantas pessoas abandonem espaços, relações e até carreiras não pela ausência de dinheiro, mas pela carência desse pagamento invisível — e indispensável.

Porque no fim, todos nós trabalhamos, servimos e nos dedicamos esperando algo em troca.

E, muitas vezes, o que realmente esperamos é apenas isso: respeito, reconhecimento e sentido.

 

Vem K!  Vamos conversar?

 



Por: Karina Christina Souza
22/01/2026 - 16:36:51

Sabe aqueles ensinamentos de mãe que a gente carrega pela vida inteira?

Um deles é o senso de limite — e de bom tom — ao opinar sobre a vida alheia.

Opinar exige convite.

E quando a pessoa sequer pediu a sua opinião?

Vivemos tempos em que a falta de educação ganhou verniz de franqueza. Como se dizer tudo o que se pensa fosse sinônimo de autenticidade, e não, muitas vezes, é invasão. Controlar a língua dentro da boca passou a ser visto quase como um esforço sobre-humano diante das situações da vida alheia que se apresentam, diariamente, aos nossos olhos.

A discrição e a sensatez tornaram-se exercícios raros. Os pensamentos, que deveriam passar pelo filtro da empatia e da honestidade, escapam pela fala de forma desordenada, como gafanhotos sem rumo: fazem barulho, ocupam espaço e deixam estragos. Falta análise. Falta, sobretudo, consideração pelo outro.

A discrição, antes sinal de maturidade, hoje é vista quase como omissão.

Nem toda verdade precisa ser dita.

Nem toda opinião precisa ser compartilhada.

E quase nunca a franqueza justifica a ausência de educação.

O problema não está na sinceridade. Está na vaidade que se esconde atrás dela. Há quem confunda franqueza com superioridade moral, como se apontar o dedo e o caminho alheio fosse sinal de lucidez e não de invasão. Opinar sem convite não é coragem — é falta de educação disfarçada de franqueza.

Existe uma diferença significativa entre dizer a verdade e despejar opiniões. A primeira exige responsabilidade. A segunda, apenas impulso. E quase sempre quem diz “é só a minha opinião” não está disposto a ouvir nenhuma em troca.

A maturidade, ao contrário do que se vende por aí, não está em dizer tudo o que se pensa, mas em saber o que merece ser dito, quando deve ser dito — e, principalmente, se precisa ser dito. O silêncio, muitas vezes, é um gesto de respeito, não de omissão.

E a franqueza só é válida quando caminha de mãos dadas com a educação.

Talvez o maior sinal de amadurecimento social e humano não seja ter algo a dizer sobre tudo, mas compreender que a vida  do outro não é espaço de livre acesso.

Vem K!  Vamos conversar?

 

Karina Christina Souza



Por: Karina Christina
15/01/2026 - 18:15:26

Meu pai, aos 86 anos, sempre que presencia uma ofensa a um idoso ou ouve comentários  de desprezo sobre o envelhecer, responde em alto e bom som:

“Só não vai envelhecer quem já morreu!”

A frase simples é desconcertante.

Afinal, envelhecer não é tão natural quanto nascer?

Por que, então, uma parcela tão significativa da sociedade insiste em tratar o envelhecimento como um erro, uma falha moral, um crime passível de punição?

Mais espantoso ainda: quem ousa assumir essa fase da vida de maneira natural costuma ser rotulado como fraco e descuidado diante de todos.

O envelhecimento, hoje, vem cercado por crenças limitantes — físicas, mentais e emocionais — tão visíveis quanto palpáveis. Ele é frequentemente associado à perda, à inutilidade, à decadência. Pouco se fala sobre ganho, maturidade e sabedoria adquiridos ao longo dos anos.

Não por acaso, esse cenário fértil de ignorância e preconceito estruturado alimenta uma indústria inteira que prospera à sombra do medo de envelhecer. Cremes milagrosos, suplementos “naturais”, procedimentos estéticos lançados a toque de caixa — tudo para sustentar a fantasia de uma juventude eterna. Um mercado bilionário que vende esperança embalada em ilusão.

O resultado? Em grande parte dos casos, não é satisfação, mas uma busca infinita por algo que não retorna. A juventude não volta. E talvez o maior sofrimento esteja justamente em lutar contra essa verdade.

Cabe, então, distinguir conceitos que costumam ser confundidos:

juventude não é jovialidade,

jovialidade não é bem-estar,

e bem-estar não tem idade.

Mas de onde vem, afinal, esse ranço contra o envelhecimento?

Historicamente, na Grécia Antiga, o vigor físico e a beleza foram elevados ao ideal humano. O corpo jovem e forte tornou-se símbolo de perfeição — um imaginário que atravessou séculos e ainda repercute em nossas expectativas sociais.

No Brasil, os direitos das pessoas idosas só ganharam reconhecimento legal em 2003, com o Estatuto da Pessoa Idosa. Ainda assim, muitos idosos continuam sendo vistos como um peso — para a família, para o Estado, para a sociedade. Tornam-se vítimas frequentes, principalmente de violência física, patrimonial e psicológica, muitas vezes invisibilizadas.

“Ranço social contra o envelhecimento” é, portanto, o nome dado a esse preconceito engendrado e naturalizado contra quem envelhece — e contra o envelhecer em si.

Os dados são claros: a população idosa cresce em ritmo acelerado no mundo. Pessoas com 60 anos ou mais já representam uma das faixas etárias que mais se expandem globalmente. No Brasil, essa realidade é ainda mais urgente: em poucos anos, haverá mais idosos do que crianças.

Esse fenômeno movimenta — e continuará movimentando — áreas antes ignoradas: mercado de trabalho, beleza, previdência, cuidados especializados, valorização dos cuidadores de idosos, consumo, turismo. O envelhecimento não é exceção. É regra. É futuro. É presente.

Diante disso, não há mais espaço para negar ou maquiar essa realidade.

O ranço social contra o envelhecimento precisa ser desconstruído, ressignificado e enfrentado, com reflexões honestas e práticas concretas. Precisamos de políticas públicas eficazes, estruturas familiares mais conscientes e, sobretudo, de vivências impregnadas de humanidade, compaixão e solidariedade.

Envelhecer não é perder valor.

É transformar o tempo vivido em história, em memória, em legado.

 

Vem, K!

Vamos conversar?