A frentista Rute Oliveira Carvalho, casada, dois filhos, tem que se levantar, todos os dias às 4 horas da madrugada, para às 5 horas iniciar o dia de trabalho de 9 horas num autoposto de Eunápolis. Em horário inverso, Martinha Carvalho Loia, desquitada, três filhos, gari, após um dia da lide doméstica, começa a sua jornada às 17 horas, e só retorna para casa, no bairro Urbis III, quando já é quase meia noite.
Já a produtora rural e presidenta do Sindicato dos Produtores Rurais de Eunápolis (SPRE), Eliane Menêses, divorciada, dois filhos, não tem uma jornada com horário específico, mas, nem por isso deixa de ter o dia menos ocupado. Muitas vezes trabalha durante o dia e parte da noite, além das muitas viagens, cuidando da sua propriedade rural, e defendendo os interesses dos produtores do município.
Agenda diária apertada tem também a sindicalista Jovita Lima Silva dos Santos, educadora e sindicalista - presidenta da APLB Delegacia Costa Sul -, que vive o seu dia a dia entre a sede do sindicato, as escolas e prefeituras, num vai e vem que, muitas vezes não lhe permite uma folga no final de semana.
Foi a luta diária de mulheres assim que permitiu, nesses 155 anos que separam o dia 08 de março de 1857, em que operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque (EUA) fizeram uma greve reivindicando melhores condições de trabalho, as muitas conquistas obtidas pelo ex sexo frágil.
Porém, para cada uma delas, ainda faltam muitas conquistas. Mais dignidade e reconhecimento são algumas das reclamações, como de Jovita, para quem, a isonomia salarial, ou seja, o pagamento dos mesmos salários para homens e mulheres que exercem as mesmas funções ainda é uma conquista a ser obtida. "Isso é um desrespeito", reclama a sindicalista que cita ainda a violência física como o "mal" maior.
Aliás, essa desigualdade está sendo revista no nosso país, com a aprofação, no dia 6, no Senado Federal, de projeto de lei que pune empresas que usam essa prática. O projeto que deve ser sancionado pela presidenta de República nos próximos dias, proíbe o pagamento de salários diferenciados para homens e mulheres que exerçam funções iguais.
Por sua vez, Eliane diz que o que mais falta é o respeito para por um fim à violência contra o sexo feminino. A empresária afirma ainda, se entristecer com a tragédia ocorrida naquele dia, mas reconhece que o episódio serviu de incentivo para que as mulheres passassem a lutar pelos seus direitos. "Aquele episódio nos permitiu, a partir de então, obtermos conquistas que, talvez não fossem possíveis", comentou.
A conquista de espaços pelas mulheres nos cargos públicos e em instituições continua em alta em todo o Brasil. No governo federal, cerca de duas dezenas delas chefiam ministérios e postos chave em importantes estatais, como na Petrobrás, cujo poder sempre esteve nas mãos dos homens. Na Confederação Nacional da Agricultura (CNA) entidade predominantemente masculina, pela primeira vez, uma mulher, a senadora Kátia Abreu ocupa a presidência.
No futebol, outro reduto machista, a ex-nadadora Patrícia Amorim ocupa a presidência de um dos mais importantes clubes brasileiros, o Flamengo.
Porém, a violência contra elas ainda grassa em todas as regiões do nosso país. Em reunião da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Violência Contra a Mulher, realizada no dia 28 de fevereiro, deputados e senadoras apresentaram sugestões para o plano de trabalho, ressaltando sua preocupação com a persistência de mecanismos ineficientes de defesa da mulher e com a falta de cumprimento pleno da Lei Maria da Penha.
Por isso, o sentimento entre as mulheres, de uma forma geral, é de que o que se conseguiu ainda é pouco, "precisamos conquistar mais", como afirmou a frentista Rute.
*Essa é a origem do Dia Internacional da Mulher. Uma greve de operárias. A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.