Por: Elas Por Elas
18/03/2020 - 09:40:44

No último domingo, um médico foi ao programa do Faustão para tirar dúvidas sobre o Covid-19, o Coronavírus. Durante a entrevista, ele falou que mulheres tendem a ser mais resistentes e viver mais, porque “vaso ruim não quebra”. Além do comentário carregado de machismo e em meio a tantas desinformações espalhadas pela internet, conversamos com a Luiza Cadioli, médica de família e comunidade, do coletivo feminista Sexualidade e Saúde, para entender se há ou não peculiaridades do vírus no organismo feminino. Luiza trabalha em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que faz parte do SUS, o sistema público, universal e gratuito de saúde do Brasil.

O projeto Elas Por Elas vai acompanhar as informações relacionadas às mulheres e os impactos do Covid-19 na população feminina. Para entender se há especificidades (ou não) do Coronavírus no organismo feminismo, conversamos com a doutora Luiza Cadioli que falou sobre esse tema e tirou as principais dúvidas:

1) As mulheres precisam de algum cuidado específico, em relação à higiene íntima, para se protegerem do vírus, além dos procedimentos padrões de prevenção?

Luiza: Não é necessário nenhum outro procedimento de higiene para as mulheres se prevenirem de contrair o vírus

2) Sobre as mulheres que cuidam de pessoas idosas e crianças, a que riscos elas estão submetidas? E como podem se prevenir?

Luiza: As mulheres cuidadoras de crianças e idosos estão mais suscetíveis a contrair e espalhar o vírus. Como a maioria das transmissões acontece por conta de pessoas assintomáticas, todas as pessoas que são cuidadoras estão em maior risco e/ou colocando mais pessoas em risco. Por isso uma das medidas é diminuição de circulação e fechamento de escolas, para diminuir a chance de crianças serem portadoras assintomáticas e, portanto, transmissoras.

3) As gestantes precisam de atenção especial? Se sim, que medidas tomar? O feto corre risco se a mãe contrair o vírus?

Luiza: Estima-se que o risco das gestantes seja o mesmo da população geral, por isso é importante que sigam as mesmas recomendações: diminuir circulação na medida do possível, agendar consultas de rotina à distância, evitar idas a Prontos Socorros a não ser em caso de urgência.

Ainda há dúvidas sobre contaminação do feto via gravidez ou via parto, mas os casos de recém nascidos com mães positivas para coronavírus que foram testados veio positivo, sem agravamento da saúde do bebê.

O fato de sabermos que crianças e adultos jovens são grupo de menos risco nos causa alívio. Mas é preciso nos atentarmos não só para o Covid-19, mas para todas as síndromes gripais e lembrar que gestante é grupo de risco para influenza e deve ser vacinada. 

Lembrarmos de outras doenças importantes nesse grupo é essencial para que não fiquemos focados somente no coronavírus.

4) Um médico foi ao domingão do Faustão e disse que as mulheres tendem a ser mais “resistentes” porque “vaso ruim não quebra”. Você teria uma explicação mais adequada para essa afirmação?

Luiza: A prevalência da infecção é semelhante nos dois sexos. O que foi observado é que a porcentagem de casos graves era maior entre os homens. Há algumas hipóteses para isso, como o estrogênio sendo protetor para o sistema imunológico, mas são especulações.

O Coronavírus é uma infecção recente e ainda não se sabe porque se comporta diferente entre homens e mulheres. Mas sabemos que mulheres, em  geral, vivem mais e tendem a ter menos internações, mesmo na velhice, independente da causa.

5) O vírus transmite por relação sexual? Que precauções as mulheres devem tomar?

O vírus transmite por contato com gotículas infectadas. Na relação sexual, existe troca de fluidos, de saliva. Mas não é considerada um IST. Portanto andar de mãos dadas, beijar ou ter relações com alguém, mesmo que assintomático, expõem as mulheres a se infectarem sim com o vírus.

É importante salientar que é cedo pra dizer sobre essa forma de transmissão, mas

O contato íntimo por si só já oferece risco de transmissão.

Pandemia e trabalhadoras

As mulheres representam um grande grupo de trabalhadoras informais — empregadas domésticas, babás, artistas, professoras não registradas — que são as primeiras atingidas pelas reformas do governo Bolsonaro. Muitas pessoas, dentre elas mulheres, não podem ficar em casa e continuarão a trabalhar, pegar transporte público, frequentar lugares públicos, etc.

Os impactos da precarização do emprego, da flexibilização dos direitos trabalhistas — somados ao papel social imposto à mulher de cuidados e responsabilidade com a casa, crianças e idosos — ficam ainda mais evidenciados quando as orientações das autoridades não consideram a desigualdade social do país.

“Em momentos de crise, a brutalidade da desigualdade social brasileira se torna ainda mais evidente. Temos mulheres que cuidam de idosos e crianças, grupos considerados de risco pelas autoridades. E temos um governo que precariza direitos trabalhistas, retira direito das mulheres, corta verba da saúde pública e deixa elas ainda mais vulneráveis à pandemias como essa”, explica Anne Karolyne, secretária nacional de mulheres do PT.  

6) Como as mulheres que não podem ficar de quarentena podem reduzir os risco de contágio?

Luiza: Na medida do possível, evitar multidões, pegar um transporte mais vazio, lavar as mãos com mais frequência e usar máscaras se estiver com algum sintoma respiratório.

7) Não se trata apenas de medidas de saúde. Ações coletivas também importam.

Luiza:  É importante as pessoas que contratam serviços de mulheres [principalmente de relações precarizadas que não podem ficar de quarentena] entendessem que elas estão mais expostas a contrair o vírus e pudessem dispensá-las de seus trabalhos sem que isso acarretasse um prejuízo financeiro para elas. Um exemplo é pagar a diária de seu serviço, mas recomendar que ela fique em casa.


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