
Por Priscila Ferreira, advogada empresarial, especialista no mercado de tecnologia e inovação, Direito Digital, compliance e fundadora da infer assessoria.
Casos recentes, como o do Banco Master, que está sendo investigado pela Polícia Federal por suposta contratação de influenciadores para disseminar ataques contra o Banco Central, revelam uma engrenagem pouco compreendida fora dos círculos técnicos: o funcionamento das campanhas digitais coordenadas. Segundo as investigações, a ação teria envolvido a distribuição organizada de conteúdos e mensagens padronizadas por redes sociais e aplicativos de mensagem, com o objetivo de influenciar a opinião pública e pressionar decisões regulatórias. Mais do que uma discussão jurídica isolada, o episódio evidencia como estruturas relativamente pequenas podem gerar grande impacto público ao explorar, de forma estratégica, tanto a infraestrutura quanto os comportamentos das plataformas digitais.
Essas operações utilizam ferramentas de sincronização como Hootsuite ou bots em Telegram e WhatsApp Business, que programam postagens simultâneas em redes como Instagram, TikTok e X. Um núcleo de 10 a 50 influenciadores macro recebe material pré-definido, incluindo scripts, imagens e hashtags padronizadas, enquanto algoritmos de geolocalização e machine learning hipersegmentam públicos e priorizam o fluxo coordenado, gerando viralidade orgânica. Interações automatizadas em massa simulam engajamento espontâneo, elevando o alcance de milhares para milhões de impressões em poucas horas.
Ao contrário do que se imagina, essas campanhas não dependem necessariamente de grandes exércitos de pessoas ou de investimentos massivos. Elas operam a partir de lógica técnica, sincronização e entendimento profundo dos algoritmos e padrões de engajamento das redes sociais. O primeiro elemento central é o uso simultâneo de múltiplas plataformas. Narrativas raramente ficam restritas a um único canal. Elas circulam ao mesmo tempo em redes abertas, aplicativos de mensagem, fóruns, portais de notícias e até em conteúdos de vídeo, criando a sensação de ubiquidade. Essa distribuição reforça a percepção de relevância e legitimidade do conteúdo.
Outro fator crítico é a sincronização de postagens. Em campanhas coordenadas, o tempo é decisivo. Mensagens semelhantes ou complementares são publicadas em janelas curtas, frequentemente em horários de pico, simulando um surto orgânico que algoritmos interpretam como interesse genuíno. Essa simultaneidade impulsiona o conteúdo, multiplicando seu alcance e a percepção de engajamento espontâneo.
Juridicamente, essa sincronia fragiliza limites legais. Práticas de astroturfing, que simulam apoio espontâneo do público quando na verdade são coordenadas, violam o Marco Civil da Internet e as normas do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) sobre propaganda simulada, gerando responsabilidade solidária para coordenadores de desinformação ou dano moral. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige bases legais explícitas para o uso de dados comportamentais na definição de horários de postagem. Recomenda-se auditar registros de data e hora e incluir cláusulas de janela anti-sincronia em contratos de influência, garantindo transparência e mitigando riscos junto à Polícia Federal (PF) ou à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
A amplificação artificial completa o ciclo. Curtidas, comentários e compartilhamentos são estimulados de forma direcionada, seja por grupos organizados, seja por automação parcial, aquecendo o conteúdo nos primeiros minutos e sinalizando aos sistemas que a narrativa merece maior distribuição. Do ponto de vista técnico, exploram-se vulnerabilidades algorítmicas e comportamentais. Os mecanismos das plataformas priorizam engajamento, recorrência e velocidade de interação, enquanto o comportamento humano tende a validar informações que aparecem repetidamente em diferentes fontes. A combinação desses fatores cria um efeito de retroalimentação que reforça a narrativa artificialmente.
Esse cenário apresenta desafios jurídicos e institucionais relevantes. Muitas ações operam em uma zona cinzenta entre liberdade de expressão, marketing digital legítimo e manipulação informacional. A descentralização e fragmentação dificultam a identificação de autoria, comando e intenção, especialmente na ausência de ordens explícitas ou contratos rastreáveis. Campanhas coordenadas raramente deixam provas isoladas, funcionando como sistemas distribuídos, em que pequenas ações aparentemente desconectadas ganham força quando analisadas em conjunto. Isso exige das autoridades, empresas e áreas de compliance uma leitura técnica e interdisciplinar dos fatos.
O caso do Banco Master exemplifica como essas campanhas transcendem o ambiente virtual, gerando impactos institucionais, regulatórios e reputacionais. Narrativas artificialmente amplificadas distorcem debates públicos e pressionam órgãos como o Banco Central e a Polícia Federal, moldando percepções sociais antes da apuração factual. Para empresas e instituições, a lição é clara: não basta reagir apenas quando o tema chega à imprensa ou aos tribunais. É fundamental investir em monitoramento avançado, governança digital, políticas claras de atuação online e integração entre jurídico, comunicação e tecnologia. Prevenir passa por compreender como essas campanhas funcionam tecnicamente e quais sinais indicam coordenação.
Portanto, no ambiente digital contemporâneo, influência não depende de maioria, mas de estratégia, sincronização e infraestrutura. Ignorar essa realidade é subestimar a capacidade de pequenos grupos de gerar grandes impactos, moldando percepções e pressionando instituições. Reconhecer e compreender esses mecanismos é o primeiro passo para enfrentar os riscos jurídicos, sociais e reputacionais que esse tipo de operação representa, permitindo que empresas e órgãos reguladores atuem de forma preventiva e responsável.
*Formada há mais de 11 anos, com experiência jurídica trabalhista, empresarial, em Direito para as Startups, Digital e no setor de Departamento Pessoal. É especialista pela Universidade Cândido Mendes no Estado do Rio de Janeiro, em compliance e Direito para as Startups pela FGV e em estrutura/viabilização das empresas, principalmente nos setores de tecnologia e da informação pela USP