Por: Ivanoy Couto
12/08/2012 - 00:00:00

O Show da Vida - Aquele cartaz anunciava o grande show da minha banda preferida, deveria estar feliz, contudo, a tristeza tomava conta de mim. Faltava-me dinheiro para adquirir o ingresso. Pensei: a solução está em meu pai. Pediria a ele um adiantamento da mesada.

Caminhei a passos largos até minha casa. Lá chegando, abri a porta e vi meu pai, sentado no sofá da sala, assistindo o grande clássico do campeonato brasileiro. Eis a grande chance depositada no resultado daquele jogo. Era o jogo que não só definiria a felicidade dele, como também a minha.

Sentei-me ao seu lado e vi os seus olhos implacáveis direcionados para a televisão. Olhei para a mesma direção e observei, atentamente, a minha esperança rolar pelos ombros daquele jogador, descer por suas costas, alcançar as suas pernas e suavemente depositar-se nos seus pés, como um maestro regendo a sua orquestra. Fechei meus olhos por um segundo; ao abri-los, vi o abraço da rede sobre aquela bola, tal qual um pai afagando o seu filho.

Então gritei: GOOOOL! Olhei para o meu pai, ansioso para receber dele, assim como a bola, o tão desejado abraço.

O silêncio só foi quebrado pelo comentarista, que dizia: gol contra.

Levantei-me, sorrateiramente, dirigi-me aos meus aposentos, depositei a minha felicidade sobre a escrivaninha do meu quarto e deitei-me. Antes que colocasse a mão no interruptor do abajur, a porta se abriu e vi a imagem de meu pai, impassível, adentrar-se, pela primeira vez, naquele meu particular espaço. Direcionou o seu olhar para a mesinha e perguntou-me:
- Junior, que show é este do cartaz?
-É da minha banda preferida: Chiclete com Banana, respondi.
Timidamente, perguntei-lhe:
- O senhor gostaria de ir?
- Você me leva? redarguiu ele.

Surpreso, pulei rapidamente da cama, derrubei o abajur, quando percebi que não estava sonhando. Ou melhor, era um sonho que me despertava para uma nova realidade.

Imediatamente, iniciamos os preparativos: fizemos aquecimento, tomamos banho e vestimos a nossa indumentária: bermuda, camiseta, tênis e boné.

Seguimos para o estádio, onde aconteceria o evento. A fila da bilheteria estava enorme e ocupávamos o último lugar. Chegou a nossa vez. Meu pai comprou os ingressos e nos dirigimos saltitando para o portão de entrada, iguais a dois "brothers" adolescentes.

De igual modo, também, a fila da entrada estava longa. Ficamos ali por muitas horas ouvindo a música tocar. A multidão se aproximava e a minha expectativa aumentava. Eu tagarelava desenfreadamente, querendo, naquele pequeno espaço de tempo, transmitir para o meu pai todas as informações sobre a minha vida, que ele não conhecia e que estava contida em mim por longos quinze anos. Tudo era só felicidade!

Era a nossa vez de entrar. Segurei firmemente a sua mão, como um fiel escudeiro que protege o seu senhor, e adentrei o estádio. Aquele era o nosso grande dia, juntos iríamos assistir ao desejado show. Olhei sorridente para ele, quando então percebi que gotículas de lágrimas vertiam pela face do meu velho.
No meio de um profundo vazio, assustado, perguntei:
- Papai, porque está chorando? O show ainda não começou.
Ele então respondeu calmamente:
- Juninho, o show do Chiclete já acabou; a música, a vibração e a participação do público já não existem mais .Eu estou chorando, meu filho, de felicidade. O nosso show está começando. É o show da vida que nos conduzirá à felicidade. Obrigado, meu filho. Foi preciso perder um jogo para ganhar a alegria de viver. Você, Juninho, foi o autor do mais lindo gol que já presenciei.

Olhei para aquela rede que se encontrava no gramado do estádio, e a vi balançando; em segundos, voltei os olhos para papai e percebi que ele me abraçava, afagando-me carinhosamente. Era tudo o que desejei durante todos aqueles longos anos: assistir a um grande show, e este foi muito especial porque me transportou para o palco . Era o show da minha vida.

Ivanoy Moreno Freitas Couto
Salvador-BA., 04 de maio de 2011
e-mail : ivanoycouto@gmail.com

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