Por: Teoney Guerra
02/03/2012 - 00:00:00

Nota Explicativa - Ao que parece, em 2012 completa50 anos do funcionamento dos primeiros cinemas em Eunápolis. Digo, "ao que parece", porque não há informações precisas que deem essa garantia, mas tudo indica que sim. E para reconstituir essa fase da vida da nossa cidade, entrevistamos diversas pessoas, inclusive donos de algumas das casas de projeções que aqui funcionaram. Mas, as informações são escassas, imprecisas. E para tentar complementá-las e, assim, poder resgatar de forma mais completa - num livro que estamos produzindo -, essa época, resolvemos publicar esse texto, na expectativa de ter a colaboração de pessoas possuam informações e fotos dessa época. Contatos pelo e-mail: teoneyaguerra@gmail.com.

Os primeiros cinemas foram instalados em Eunápolis na década de 60, provavelmente em 1962. O primeiro, o Cine Teatro Mara, de propriedade de um senhor conhecido com Zé Rico, funcionava na hoje rua Paulino Mendes Lima, ao lado de onde é o bar do Aurelino Cotó. Provavelmente no mesmo ano foi inaugurado o Cine Brasil, que funcionava na hoje rua Dr. Gravatá - onde está localizada uma empresa de transportes de valores. Era de propriedade de José Porfírio de Melo. No cinema de Seu Melo havia um serviço de autofalantes, o primeiro do então povoado, que, além de fazer a divulgação dos filmes a serem apresentados, veiculava também anúncios do comércio, avisos de utilidade pública e músicas. Eram locutores: Antônio Reis, Adail Tavares e Hélio, o operador do projetor do cinema, cujo sobrenome não é lembrado.

Na época, o povoado não era dotado de energia elétrica, por isso, Seu Melo teve que implantar um sistema de eletrificação próprio, com um motor a diesel.

Algum tempo depois - que as pessoas ouvidas não puderam informar com precisão -, Seu Melo adquiriu o Cine Mara, que depois foi desativado; o que ocorreu por volta de 1963/64, também com o Cine Brasil.

Mais para o final da mesma década, o empresário Gildásio Pita instalou no povoado, na hoje rua Duque de Caxias, o Cine Coral. Um cinema de luxo. Na entrada, havia uma sala de espera, dotada de cadeiras e uma bomboniere; as paredes eram decoradas com pinturas alusivas à cultura cacaueira, e a sala de exibições, iluminada com jogos de luzes coloridas que, antes do início do filme, apagavam aos poucos, sinalizando para que os assistentes apagassem os cigarros.

Um novo cinema, o Cine Aguiar, foi inaugurado no ano de 1973. Pertencia à empresa Ribeiro & Aguiar Ltda, que tinha como sócios os irmãos Dagmar Gonçalves de Aguiar (Filinho) e Delormino Moreno Aguiar, e Neuzo Alves Ribeiro. Para instalar o cinema, os sócios construíram um prédio em mais ou menos oito meses.

Os cinemas tinham uma frequência muito boa, que propiciava o funcionamento todos os dias da semana. De segunda a sexta-feira, havia uma sessão, que iniciava por volta das 20 horas; no sábado, duas sessões, a primeira iniciando às 19 horas e a segunda logo após o término da primeira, por volta das 21h 30 min. E no domingo, três sessões, a primeira, à tarde, por volta das 16 horas, e as seguintes, à noite, a partir das 19 horas. Nas sessões de sábado e do domingo, o público assistente total chegava a quase duas mil pessoas. Havia salas com capacidade para até 700 expectadores.

O Cine Coral apresentava filmes dos melhores estúdios, produções mais caras e requintadas, como filmes de espionagem - 007 - e romances - como e o Vento Levou. Por isso, era frequentado por pessoas de melhor condição social. O Aguiar tinha características mais populares. Apresentava filmes variados, porém, os que mais atraiam expectadores eram os de bang bang e karatê. Fazia também sessões de filmes pornôs.

Os filmes eram alugados nas distribuidoras de Salvador, Belo Horizonte e São Paulo. A maioria vinha de Salvador, pelos ônibus da Empresa Sul Baiano (SULBA). Os alugados das distribuidoras de Belo Horizonte, vinham via Nanuque, transportados pela viação Gontijo, e os alugados em São Paulo, pela viação São Geraldo. Vinham sempre na quarta, ou na quinta-feira, e eram devolvidos nos mesmos dias da semana seguinte. Em geral, cada cinema apresentava três a quatro filmes diferentes por semana. Filmes produzidos em 35 milímetros, cujos aluguéis eram mais baratos. A divulgação das sessões de cinema era feita através dos cartazes, que eram afixados em placas de madeiras e expostos em pontos de grande fluxo de pessoas, nas calçadas, e pelos serviços de autofalantes. Quando o filme a entrar em cartaz era uma produção mais cara, os próprios donos dos cinemas reforçavam a divulgação, colocando nas ruas os carros de som que possuíam para essa finalidade.

Foi um tempos em que a TV ainda não concorria com a denominada "sétima arte". Já havia sinal de TV em Eunápolis, porém, pouquíssimas famílias dispunham de um aparelho em casa - só os mais ricos, que compravam os aparelhos em Salvador, ou em outras capitais. Para assistir a televisão, a população se reunia na praça da Bandeira, onde, na parte central, havia um aparelho de TV, que ficava acondicionado numa espécie de caixa de metal, que ficava instalada sobre uma base de tijolo e debaixo de uma pequena torre que era também antena.

Nessa época, que transcorreu depois da segunda metade da década de 70, até meados da década seguinte, o povoado vivia uma vida noturna bastante agitada nos diversos bares e boates, com destaques para a Boate Barrancos e o estabelecimento Coqueiro, que dispunha de dois ambientes: uma boate e uma seresta. Havia também o Clube Social, local das grandes festas, e o prostíbulo, localizado no primeiro quarteirão da hoje avenida Porto Seguro.

Os cines Coral e Aguiar foram também palcos de grandes shows de música, tendo se apresentado nesses locais, entre outros cantores famosos: Raul Seixas, José Ribeiro, Marcio Greick, Adriana, Agnaldo Timóteo, Fernando Mendes, Sérgio Reis, e Nelson Gonçalves, grandes ídolos da época.

Quatro anos depois de se instalar em Eunápolis, a Ribeiro & Aguiar adquiria o Cine Coral; um ano depois, o Cine Eunápolis, outro cinema popular, especializado em filmes de kung-fu e pornôs, que funcionava no bairro Pequi. E a partir daí, expandiu sua rede de salas de projeções para Itabela, Guaratinga e Teixeira de Freitas, onde instalou mais dois cinemas. Uma época que foi considerada pelos donos dos cinemas, como "de ouro", até por volta de 1985, quando o cinema passou a ter a concorrência da TV e do videocassete, equipamentos cujos preços já estavam mais baratos, acessíveis à classe média e já eram vendidos no comércio em Eunápolis.

Sentindo essa forte concorrência, a Ribeiro & Aguiar inovou. Manteve, no Cine Aguiar, a sala grande com a telona, que funcionava no térreo, e abriu no andar superior, quatro salas menores - a maior com 100 lugares e a menor com 20 -, dotadas de telas pequenas e aparelhos de videocassetes, que alugava para grupos de pessoas. Espécie de sessões exclusivas. Porém, a estratégia comercial não resistiu à TV, e dois ou três anos depois - Filinho não sabe com precisão - todos os cinemas foram fechados. O Coral foi o primeiro: "acho que em 1987", afirma o empresário, e os outros sucessivamente. Terminou também a sociedade e a empresa Ribeiro & Aguiar.

Ainda hoje, o projetor, a tela, cadeiras e outros móveis do Cine Aguiar são mantidos numa das salas sombrias do antigo cinema, como fantasmas, que insistem em não abandonar o castelo onde, em vida viveram momentos de esplendor e alegria, e agora, inutilmente tentam resistir à ação do tempo, que levou o glamour de uma época áurea do então maior povoado do mundo.

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