
A demissão de João Saldanha às vésperas da Copa do Mundo de 1970 permanece como um dos episódios mais fascinantes, controversos e simbólicos da história do futebol brasileiro. Mais do que uma simples troca de treinador, o caso envolveu política, disputas de poder, conflitos pessoais e diferentes visões sobre o futuro da Seleção Brasileira.
Saldanha assumiu o comando da seleção em 1969 e rapidamente transformou uma equipe desacreditada em uma máquina vencedora. Sob sua liderança, o Brasil conquistou a classificação para a Copa do México com 100% de aproveitamento nas Eliminatórias, desempenho que consolidou a base da equipe que posteriormente se tornaria campeã do mundo.
Entretanto, os resultados dentro de campo não foram suficientes para garantir sua permanência. Um dos fatores mais conhecidos foi o conflito com o regime militar. O presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici, admirava o atacante Dario, o Dadá Maravilha, e desejava vê-lo convocado. Saldanha recusou qualquer interferência política e respondeu com a frase que entrou para a história: “Eu não escalo o ministério dele. Ele não escala a minha Seleção.” Em plena ditadura militar, a declaração foi vista como um desafio direto à autoridade do governo.
A situação se tornava ainda mais delicada porque Saldanha era filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e jamais escondeu suas convicções políticas. Para um regime que utilizava o futebol como instrumento de propaganda nacionalista, ter um comunista declarado no comando da seleção representava uma contradição cada vez mais difícil de sustentar.
Outro episódio que desgastou sua posição foi a polêmica envolvendo Pelé. Após exames médicos apontarem problemas de visão, Saldanha comentou publicamente que o camisa 10 poderia não estar em condições ideais para atuar. Embora não tenha efetivamente retirado Pelé da seleção, a simples possibilidade de não convocar o maior ídolo do país, provocou enorme repercussão e ampliou seu isolamento dentro e fora do ambiente da equipe.
Seu temperamento explosivo também contribuiu para o desfecho. Discussões frequentes com dirigentes, membros da comissão técnica e adversários criaram um ambiente de tensão permanente. A CBD encontrou nesses conflitos a justificativa ideal para uma decisão que, para muitos historiadores, já possuía forte motivação política.
Nos bastidores, João Havelange desempenhou papel fundamental nesse processo. Ao convidar Saldanha para assumir a seleção, o então presidente da CBD neutralizou grande parte das críticas da imprensa, afinal o principal jornalista esportivo do país passava a ser o responsável pelos resultados da equipe. Quando os conflitos se acumularam, a entidade encontrou terreno favorável para promover a mudança no comando técnico.
Em março de 1970, apenas alguns meses antes da Copa do Mundo, Saldanha foi demitido e substituído por Zagallo. Embora a troca tenha sido traumática, Zagallo realizou ajustes importantes, especialmente ao reorganizar o sistema defensivo e encontrar uma forma de integrar talentos como Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho em um mesmo time sem comprometer o equilíbrio coletivo.
Ainda assim, permanece um dos grandes paradoxos da história do futebol. A seleção campeã mundial de 1970 foi construída, em grande parte, por João Saldanha. Os principais jogadores, a estrutura da equipe e a confiança do elenco haviam sido desenvolvidos durante sua gestão. Zagallo aperfeiçoou a obra, mas os alicerces já estavam lançados.
Por isso, João Saldanha ocupa um lugar único na memória do futebol brasileiro: o homem que enfrentou a ditadura, montou uma das maiores seleções de todos os tempos e, justamente quando estava mais próximo da consagração, foi impedido de colher os frutos do próprio trabalho.
Via Facebook: Un Cadin de Café