Por: The Players Tribune
18/11/2022 - 18:37:56

“Não sinto pressão dentro de campo. Medo? O que é medo? Quando você cresce tendo que pular cadáveres apenas para chegar à escola, você não pode ter medo de nada no futebol. Jogava em quadra de asfalto, descalço, com os pés sangrando. Não tínhamos dinheiro para chuteiras. Eu era pequeno, mas driblava com uma maldade que vinha de Deus. Driblar sempre foi algo dentro de mim. Um instinto natural.

E eu não me intimidava. Eu driblava os traficantes. Dava elástico nos bandidos, canetava os ladrões. Não estava nem aí. A 15 passos da nossa casa, sempre havia traficantes vendendo paradas erradas. A gente estava tão acostumado a ver armas que nem era mais tão assustador. Tínhamos mais medo da polícia derrubar nossa porta.

Uma vez, eles invadiram nossa casa procurando alguém e entraram correndo gritando. Não encontraram nada, é claro. Mas quando é muito jovem, esses momentos deixam uma marca. Aos 14, consegui minha chance no São Paulo.

Todos os dias depois da escola, eu ia para o clube com o estômago vazio. Às vezes, se fosse num dia bom, eu e meus companheiros de equipe fazíamos uma vaquinha para comprar uma bolacha para a viagem de ônibus de volta pra casa. Eu não tinha que fingir estar com fome de motivação. A fome era real.”

 

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